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Consórcio Pesquisa Café desenvolve tecnologias de pós-colheita inovadoras e sustentáveis com foco no pequeno cafeicultor

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O cuidado durante a fase de pós-colheita do café é um dos grandes diferenciais para a obtenção de um produto de qualidade

A cafeicultura historicamente tem tido importante papel no desenvolvimento socioeconômico do Brasil.  O País, além de ser o maior produtor e exportador, é também o segundo consumidor mundial. Para que a atividade cafeeira tenha sustentabilidade, é necessário atender às exigências ambientais e sociais e, principalmente, às mercadológicas, o que permite gerar renda ao setor produtivo e aos demais elos do agronegócio café. Assim é imprescindível investir na melhoria da qualidade e na agregação de valor ao produto em sintonia com as demandas de mercado. Nesse contexto, um dos fatores que mais contribui para a geração de renda dos cafeicultores, especialmente os de pequeno porte, é o uso de tecnologias de colheita e pós-colheita que contribuem para obtenção de qualidade do café a baixo custo e fácil implantação.

Um conjunto dessas tecnologias, voltado para a agricultura familiar, foi desenvolvido no âmbito do Consórcio Pesquisa Café, coordenado pela Embrapa Café, e constitui infraestrutura mínima para produção de café com qualidade e sustentabilidade econômica, social e ambiental. Essas alternativas tecnológicas permitem ao cafeicultor investir na construção de equipamentos adequados para produção de café com qualidade, pois funcionam de maneira simples, eficiente e a um baixo custo operacional e ainda podem ser construídas com matéria-prima e mão de obra regional. Do ponto de vista da sustentabilidade, essas tecnologias viabilizam também a adoção dos princípios de Boas Práticas Agrícolas, rastreabilidade e competitividade.

Para falar sobre essas tecnologias, a Embrapa Café entrevistou um dos pesquisadores responsáveis por esses estudos e inventos, Juarez de Sousa e Silva, professor aposentado da Universidade Federal de Viçosa – UFV, instituição participante do Consórcio Pesquisa Café. Juarez possui graduação em Agronomia pela Universidade Federal de Viçosa (1969), mestrado em Engenharia Agrícola pela Universidade Federal de Viçosa (1973) e doutorado em Engenharia Agrícola - Michigan State University (1980). Tem vasta experiência na área de Engenharia Agrícola, com ênfase em Engenharia de Processamento de Produtos Agrícolas, atuando principalmente nos seguintes temas: secagem, café, secador, grãos e fornalha. Hoje Juarez é bolsista do Consórcio Pesquisa Café na UFV, onde dá continuidade ao seu trabalho de pesquisa em conjunto com parceiros do Consórcio.

Embrapa Café: Há quanto tempo são desenvolvidas tecnologias de pós-colheita para o café pela UFV e Consórcio Pesquisa Café?
Juarez de Sousa e Silva: Nossos trabalhos com a pós-colheita do café vêm ocorrendo desde o nosso retorno do treinamento em pós-colheita, realizado na Universidade do Estado de Michigan, nos Estados Unidos. Entretanto, as pesquisas se intensificaram quando recebemos os primeiros financiamentos do Consórcio Pesquisa Café, cujas reuniões para discutir sua criação tenho orgulho de ter participado antes mesmo de ser lançado, em 1997.

Embrapa Café: O que motivou a pesquisa sobre pós-colheita para os pequenos cafeicultores?
Juarez de Sousa e Silva: Para os cafeicultores profissionais, principalmente os donos de grandes lavouras, estabelecidos no mercado e em boas condições financeiras e/ou fácil acesso ao crédito, já havia tecnologias que os atendessem com certo grau de eficiência no que diz respeito às necessidades operacionais da pós-colheita do café. Como essa não era a realidade do pequeno cafeicultor ou cafeicultor de base familiar, decidimos por trabalhar para essa faixa de produtores. Aprendi, durante a minha passagem nos Estados Unidos, a máxima "Faça você mesmo". O pequeno agricultor, sem tecnologia disponível para sua capacidade de produção e investimentos, teria de fazer as “coisas” por conta própria e com recursos locais à sua disposição. E esse é um grande desafio, ou seja, produzir tecnologia simples com grandes resultados. Se o Consórcio Pesquisa Café quiser valorar o que foi feito até agora por parte de alguns de seus pesquisadores, é só estudar a mudança contínua da qualidade do café da Zona da Mata de Minas. Passamos do pior para um dos melhores cafés do Brasil. Aliás, o café classificado como Rio Zona, representava, em tempos passados, as características dos cafés produzidos no Estado do Rio de Janeiro e Zona da Mata Mineira.

Embrapa Café: Além da condução correta da lavoura, os processos de preparo, secagem e armazenamento são fundamentais para a manutenção da qualidade do café produzido. Em outras palavras, quais os principais cuidados com o café na fase de colheita e pós-colheita?
Juarez de Sousa e Silva: Infelizmente parte de nossos extensionistas, a despeito de trabalharem corretamente a parte agronômica da cultura, não tiveram treinamento e, portanto, pecam por não se dedicarem às etapas da pós-colheita. Sem treinamento e sem uma infraestrutura mínima dificilmente serão produzidos cafés de qualidade em regiões com ocorrência de baixa incidência solar e alta probabilidade de chuvas no período da colheita. Posso garantir que, com tecnologia de pós-colheita, pode-se obter, em qualquer região produtora, cafés de alta qualidade em uma lavoura cafeeira que produza frutos maduros e bem formados. Qualidade de café é, principalmente, uma questão do manejo após a colheita. Nessa fase, deve-se estragar o mínimo do que se colheu da lavoura.  

Embrapa Café: Quais são as tecnologias de pós-colheita para o café arábica e conilon desenvolvidas em seus projetos, com sua equipe e parceiros, no âmbito do Consórcio Pesquisa Café?
Juarez de Sousa e Silva: Já disponibilizamos equipamentos e técnicas necessários para compor infraestrutura mínima para produção de café com qualidade, entre eles lavadores, técnicas de manejo de terreiros, pré-secadores, secadores, fornalhas, silos e sistema de aeração, determinadores de umidade, sistema de reúso e tratamento de água resultante do processamento do café e materiais didáticos específicos para melhor eficiência nesse trabalho. Além disso, equipamentos destinados ao descascamento do café já são, felizmente, fornecidos pela indústria brasileira.

Embrapa Café: Descreva sucintamente algumas tecnologias de pós-colheita e os benefícios esperados na produção e na qualidade do café.
Juarez de Sousa e Silva: Todas as tecnologias de pós-colheita do café, sua descrição, materiais empregados e benefícios estão disponíveis no site do Consórcio Pesquisa Café (www.consorciopesquisacafe.com.br) e no site pós-colheita (www.poscolheita.com.br). A infraestrutura mínima que recomendamos pode ser constituída por: a) um lavador simples que separa, também, os cafés de alta densidade dos cafés boias. Com esse equipamento, que tem custo aproximado de R$ 2.000,00 o cafeicultor pode produzir dois lotes diferenciados e reduzir área de secagem; b) um pequeno descascador de cerejas, que tem a finalidade de separar sementes de frutos maduros dos verdoengos, aumenta o número de lotes diferenciados, reduz ainda mais a área de secagem, a mão de obra e  o consumo de energia; c) o sistema de rodo virador enleirador facilita e reduz o tempo de secagem no terreiro (pode, atualmente, ser substituído por um soprador manual motorizado oferecido pela indústria); d) o terreiro secador ou terreiro híbrido é um sistema simples e, por possuir um sistema de aquecimento por fornalha - ventilador, reduz o tempo de secagem do terreiro em até cinco vezes, funciona independentemente das condições climáticas e tem custo aproximado de R$15.000,00; e) o silo secador armazenador pode ser construído na própria fazenda e, por possuir um sistema de ventilação, completa a secagem durante o armazenamento, exige menores secadores e tempo de secagem, homogeniza a umidade final do produto e com sistema de ventilação tem custo aproximado de R$700,00 por m3 de armazenagem; f) o determinador de umidade EDABO (Evaporação da Água  em Banho de Óleo) é eficiente, determina a umidade em toda a faixa (úmido - seco). Consta de uma balança simples, uma fonte de aquecimento, um termômetro comum (25ºC) e uma pequena leiteira de alumínio. Tem tempo de determinação de 15 minutos e custo aproximado de R$ 200,00. O nosso grupo também produziu e/ou adaptou tecnologias alternativas que contribuem para redução de custos e energia, respeito ao meio ambiente e redução da mão de obra, como: fornalhas (aquecimento direto e indireto), secadores mecânicos de pequeno porte, carvoeira, sistema de limpeza da água residuária, sistema de armazenagem temporária do café cereja, entre outras.

Embrapa Café: Em que regiões essas tecnologias são mais usadas? Poderiam ser adaptadas para outras regiões cafeeiras?
Juarez de Sousa e Silva: As tecnologias podem ser adaptadas para qualquer região produtora de café. Devemos dar prioridade às regiões menos favoráveis para realização da colheita, como Zona da Mata, Montanhas do Espírito Santo, Sul e Sudoeste da Bahia, todas grandes produtoras de café.

Embrapa Café: Qual o principal diferencial das tecnologias que são recomendadas especificamente para cafeicultores familiares?
Juarez de Sousa e Silva: O principal diferencial é o custo de implantação e a garantia de funcionamento adequado, independentemente das condições climáticas. Costumo afirmar que somente não haverá produção de café de qualidade se não houver colheita feita com qualidade.

Embrapa Café: Quais são os principais resultados e impactos que essas tecnologias estão gerando no campo?
Juarez de Sousa e Silva: Infelizmente não há como quantificar ou valorar os resultados. Pode-se, sim, mostrar os resultados de propriedades ou regiões onde foi possível oferecer treinamentos e disponibilizar as tecnologias. Creio que as cooperativas e os serviços de extensão possam fornecer informações sobre isso, pois, a cada dia, demandam dos produtores e recebem cafés de melhor qualidade.

Embrapa Café: De que forma essas tecnologias de pós-colheita têm chegado aos cafeicultores? O que a Embrapa Café e o Consórcio têm feito de ações para promover a transferência aos produtores?
Juarez de Sousa e Silva: Nosso grupo é muito pequeno e a grande maioria dos produtores de café está classificado na base (pequenos e médios). Já realizamos alguns treinamentos incisivos para técnicos do Paraná, Espírito Santo, Rondônia e Bahia. Agora estamos finalizando treinamento para o Estado de Minas Gerais. Os resultados obtidos pelos técnicos nesses estados nos deixam bastante satisfeitos. Esperamos que, nos próximos anos, tenhamos também bons resultados para os pequenos cafeicultores mineiros, principalmente depois da implantação de unidades demonstrativas que estão sendo instaladas por meio de parceria entre Consórcio Pesquisa Café/Embrapa Café e Emater-MG, com envolvimento de cooperativas e produtores.

Embrapa Café: No âmbito do Consórcio Pesquisa Café, que ações de transferência de tecnologia foram realizadas mais recentemente nas principais regiões produtoras destacaria?
Juarez de Sousa e Silva: Em 2013 e 2014 foram e ainda estão sendo realizadas intensamente, ações de transferência de tecnologias para extensionistas e cafeicultores familiares em diferentes regiões produtoras do País. Entre elas, Dia de Campo sobre pós-colheita do café com reúso e destinação da água residuária do preparo do café por via úmida, em Matipó – MG, em 29 de junho de 2013. Treinamento em pós-colheita e reúso da água residuária do café para 60 participantes durante a Semana do Fazendeiro, em Viçosa – MG, de 14 a 20 de setembro de 2013. Dia de Campo com apresentação do Sistema de Limpeza de Água Residuária do Café - SLAR para 120 produtores de café Conilon, em Venda Nova do Imigrante – ES, em 26 de junho de 2013. Treinamento em colheita e pós-colheita do café em Rondônia, no Campo Experimental da Embrapa Rondônia (Ouro Preto D’Oeste), de 21 e 22 de maio de 2013, para 25 técnicos da EMATER–RO e 25 produtores e líderes rurais. Treinamento em secagem de café para melhoria da qualidade do produto em Monte Belo-MG e Alfenas Caconde-MG, no período de 20 a 22 de maio de 2014. Dia de Campo em Lajinha-MG, em 7 de maio de 2014, e Dia de Campo em Fervedouro-MG, em 26 de março de 2014. Em Rondônia, foi realizado o 3° Treinamento e Dia de Campo para qualidade de café em Ouro Preto D’Oeste no período de 28 a 30 de maio de 2014. Esses treinamentos ao longo desses dois últimos anos capacitaram mais de 600 extensionistas e cafeicultores. Ressalta-se que, por exemplo, no Estado do Espírito Santo, as fazendas experimentais do Instituto Capixaba de Pesquisa e Extensão Rural - Incaper, das cidades de Venda Nova do Imigrante e Marilândia, rotineiramente recebem grande número de cafeicultores, estudantes e extensionistas que têm interesse especial nas tecnologias de pós-colheita instaladas nesses locais. O mais recente trabalho foi realizado durante o 8º Encontro Nacional do Café, realizado em Barra do Choça – BA, de 22 a 24 de julho. Nesse encontro, além de palestra e demonstração de resultados (Secador Rotativo Intermitente), foram atendidos, em forma de Clínica Tecnológica, 120 produtores de base familiar.

Embrapa Café: Outros técnicos do setor produtivo do café também estão sendo treinados para reproduzir essas tecnologias? De que forma e com que objetivos?
Juarez de Sousa e Silva: Além de clínicas tecnológicas em congressos e encontros, estamos, sempre que possível, realizando parceria com Sebrae e cooperativas para realização de treinamento de agricultores e técnicos. Agora, com o sucesso dos treinamentos avançados já realizados, o Departamento de Engenharia Agrícola – DEA, da UFV, está pronto para fornecer, no início de 2015, Pós-graduação Lato Sensu em Pós-colheita de Produtos Agrícolas. Nesse curso, a pós-colheita do café será tratada com grande profundidade. 

Embrapa Café: E estão sendo firmadas parcerias e treinamentos com empresas para fabricação dessas tecnologias?
Juarez de Sousa e Silva: Já realizamos treinamentos para artesões em Lajinha, Timóteo, Matipó, Guaxupé, Alfenas (MG), Ouro Preto do Oeste (RO), Marilândia e Venda Nova do Imigrante (ES), Barra do Choça (BA), entre outros locais.

Embrapa Café: Atualmente que tecnologias estão em desenvolvimento ou necessitam ser desenvolvidas para atender novas demandas tecnológicas de pós-colheita?
Juarez de Sousa e Silva: Primeiramente, muitas tecnologias com garantia de funcionamento, para redução do custo de mão de obra, precisam ser mecanizadas. Estamos necessitando de financiamento para desenvolvimento de sistemas para redução de trabalhos no terreiro e lavagem/descascamento noturno que já vem apresentando boas possibilidades.

Embrapa Café: Para finalizar, gostaria de acrescentar mais alguma informação a esta entrevista?
Juarez de Sousa e Silva: Reiterando o que já disse antes, a pós-colheita é a fase que garante o que foi bem feito na fase de lavoura. Redução no consumo de energia, higiene, respeito ao meio ambiente e aos aspectos sociais são seriamente levados em consideração quando propomos tecnologias de pós-colheita. Nosso grupo também estuda processos para evitar o trabalho de lavagem e despolpa no final da tarde e durante a noite. A colheita do café, em geral, ocorre no inverno e nosso objetivo é reduzir a insalubridade nessas operações.

 

Gerência de Transferência de Tecnologia

Texto: Flávia Bessa – MTb 4469/DF
Fone: (61) 3448-1927
Sites: www.embrapa.br/cafe www.consorciopesquisacafe.com.br